Refletindo o crescimento da violência de gênero em Goiânia, o número de casos confirmados de violência física contra mulheres subiu de 280, em 2020, para 814 registros ao longo de um ano, em 2023. O aumento corresponde a aproximadamente 190% no período, mostra levantamento do Observatório das Mulheres em Goiânia (Berê).
O projeto é realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Criminalidade e Violência (Necrivi), da Universidade Federal de Goiás (UFG), com o apoio da Prefeitura de Goiânia, por meio da Secretaria Municipal de Política Para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh).
O Berê se baseou em registros disponibilizados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan-Datasus), que aponta que a violência contra a mulher em Goiânia emerge de “disparidades de poder fundamentadas na desigualdade de gênero”, que moldam comportamentos de opressão e violação no cotidiano.
Em 2020, por exemplo, de um total de 1.171 atendimentos, cerca de 23,9% das mulheres (280 casos) declararam ter sofrido agressão física. Houve elevação nos anos seguintes. Em 2021, o volume de registros foi para 1.756, sendo que 438 mulheres (24,9%) confirmaram a violência física. Mas por outro lado, 1.304 mulheres (74,3%) negaram a agressão, ao passo que o número de ignorados subiu para 9 (0,5%), evidenciando o silenciamento das vítimas ou dificuldades institucionais na coleta de informações qualitativas.
Já em 2022, o número de atendimentos foi de 2.304. Do total, 557 mulheres (24,2%) declararam-se vítimas de violência física, e 1.721 mulheres (74,7%) não relataram agressões físicas. Em relação aos casos ignorados, houve um salto para 25 casos (1,1%), indicando maior complexidade nos atendimentos ou uma crescente dificuldade na obtenção de respostas durante a triagem.
O recorde se deu em 2023 – último ano analisado -, quando os registros alcançaram 3.029 casos, sendo que 814 mulheres confirmaram a violência física, o que corresponde a 26,9% – maior percentual do período. Ainda em 2023, 2.176 mulheres (71,8%) declararam não ter sofrido violência e os casos ignorados subiram para 39 (1,3%). Apesar disso, os pesquisadores apontam que a ausência de relato de violência das mulheres pode estar associada ao medo, vergonha, dependência econômica e outros fatores que afastam as vítimas do sistema de proteção.
Chamam a atenção os casos classificados como “Ignorado ou Em branco”, que passaram de 6 casos em 2020 para 39 em 2023. O aumento dessas respostas nulas sugere dificuldades institucionais na coleta de informações qualitativas ou a omissão por descrédito nas instituições por parte das vítimas.
Ao todo, em quatro anos, foram contabilizados 2.089 casos confirmados de violência física na capital.