A rede municipal de educação de Goiânia vem apresentando diferenças que vão além da infraestrutura básica e atingem a forma como os estudantes são percebidos e como o suporte às famílias é distribuído. De acordo com dados analisados pelo Observatório das Mulheres em Goiânia (Berê), os processos culturais influenciam o registro oficial de estudantes com Altas Habilidades e Superdotação (AH/SD) e que a escassez de vagas na educação infantil funciona como um mecanismo de exclusão econômica para as mulheres.
Os registros do Censo Escolar em Goiânia, produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram uma predominância de meninos identificados com AH/SD. A análise do Berê questiona se o dado reflete uma capacidade biológica superior ou uma desigualdade de reconhecimento institucional.
A identificação técnica de superdotação, segundo a pesquisa, é frequentemente interpretada sob lentes culturais: enquanto a excelência nos meninos é associada à genialidade, nas meninas ela costuma ser vista apenas como resultado de esforço e disciplina. Além disso, meninas tendem a ser socializadas para o autocontrole e a adaptação, desenvolvendo estratégias de contenção comportamental para se ajustarem às expectativas sociais.
“Esse processo produz um fenômeno silencioso: meninas com alto potencial intelectual podem desenvolver estratégias de contenção comportamental para se adequar às expectativas sociais, de modo que elas performam excelência sem romper com os padrões de feminilidade esperados”, diz a pesquisa. “Consequentemente, o resultado aparece nas estatísticas: menor número de meninas formalmente identificadas como superdotadas. Isso significa que a predominância de meninos nos registros pode refletir menos uma diferença real de capacidade e mais uma diferença institucional de reconhecimento.”
Vagas em Cmeis
Paralelamente, noutro extremo da vida escolar, a falta de vagas em Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) recai no trabalho de cuidado atribuído às mulheres, que, além da maternidade, também seguem em suas jornadas de trabalho e como donas de casa, concomitantemente.
Em 2025, o Ministério Público de Contas de Goiás (MPC-GO) identificou um déficit de 45 mil crianças aguardando vagas na educação infantil no Estado, sendo 39 mil na faixa de zero a três anos. Goiânia lidera o ranking estadual de espera, necessitando de 87 novas unidades para zerar a fila. Atualmente, a capital atende apenas 29,6% das crianças pequenas, índice significativamente inferior à média nacional de 41%.
A ausência do Estado reflete diretamente no mercado de trabalho. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indicam que mães com filhos em creches trabalham, em média, duas horas e meia a mais por semana.
A taxa de ocupação cai de 64,7% para 42,8% quando a criança está fora da escola. O cenário é agravado pelo recorte racial: crianças negras são as que mais ficam fora da rede, e suas famílias possuem menos da metade da renda per capita em comparação a famílias não negras na mesma situação.
Por trás desses números, no entanto, há histórias que os relatórios oficiais não contam. Foi nas redes sociais que essas vozes encontraram eco. A página “Não feche o meu Cmei”, no Instagram, tornou-se um ponto de encontro de mães que vivenciam na pele o descaso.
Uma delas relatou o que chamou de violação: “O meu filho foi transferido de unidade para uma que eu jamais vou conseguir levá-lo, sem minha autorização e sem meu consentimento. O sentimento que eu tenho é de ter sido violada. De ter meus direitos violados”. Outra desabafou: “Hoje chorei várias vezes. Trabalhar e não ter condições de levar e buscar os filhos na Cidade Jardim. A gente tem que sair do trabalho assim do nada para ficar cuidando das nossas crianças”.
A crise da falta de vagas em Cmeis se intensificou com denúncias de transferências compulsórias de crianças sem o consentimento das famílias e o possível fechamento de unidades em favor de um plano de terceirização. Documentos do Ministério Público de Goiás (MP-GO) apontam repasses de R$ 15 milhões a entidades filantrópicas em 2025, enquanto a Secretaria Municipal de Educação (SME) justifica as mudanças como “otimização dos espaços”.
Para as pesquisadoras do Berê, a falha na oferta de educação infantil não é apenas uma lacuna administrativa, mas um pilar que sustenta a desigualdade, forçando mulheres a abandonarem empregos e projetos pessoais para suprir a ausência de suporte público. O conhecimento desses dados é apresentado como o passo necessário para a formulação de políticas que garantam a dignidade e a segurança das cidadãs de Goiânia.