A violência de gênero em Goiânia não se manifesta como um evento isolado, mas integra um processo contínuo e progressivo. É o que mostram os dados da Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO), analisados no estudo Análise dos dados da violência contra as mulheres em Goiânia e no Estado de Goiás (2020–2024), do Observatório das Mulheres em Goiânia (Berê).
Entre 2021 e 2023, a capital goiana contabilizou 29.677 ocorrências totais, apresentando um crescimento anual contínuo, já que foram 9.366 registros em 2021; 9.661 em 2022; e 10.650 em 2023. O indicador mais crítico do levantamento aponta que aproximadamente 70% das mulheres atendidas registraram duas ou mais ocorrências no período analisado.
A pesquisa aponta que o feminicídio é o ápice de um percurso marcado por ameaças ignoradas e medidas protetivas descumpridas. Ao contrário da narrativa de “tragédia inesperada”, os dados demonstram que a violência é previsível e evitável, caso houvesse intervenção precoce em trajetórias já sinalizadas por agressões sucessivas.
Na tabela de ocorrências de violência contra a mulher, considerando o total dos três anos analisados, enquanto 8.755 mulheres tiveram apenas um registro, a maioria absoluta das vítimas está inserida em trajetórias de repetição: 12.900 mulheres registraram duas ocorrências e 7.383 chegaram ao terceiro registro. Há ainda casos extremos que somam quatro ou cinco notificações oficiais por uma mesma vítima.
De acordo com a pesquisa, a alta taxa de reincidência sugere que o acionamento do aparato estatal, ou seja, a procura pelas redes de proteção oferecidas pelo Estado, não tem sido suficiente para romper o ciclo de agressões. Isso porque, segundo a análise, o sistema público de segurança tem funcionado majoritariamente como apenas um espaço de “registro estatístico”, falhando em sua função de mecanismo efetivo para a contenção do risco e proteção da integridade das vítimas.
O estudo destaca que a própria obtenção e sistematização desses dados é dificultada por lacunas na transparência do Estado, o que compromete a elaboração de diagnósticos precisos sobre o perfil das vítimas. Essa dificuldade institucional impede que as políticas públicas alcancem as especificidades de cada caso, limitando-se a respostas emergenciais e punitivas que não tratam as causas estruturais, como a dependência econômica e o controle simbólico exercido pelos agressores.