A violência contra a mulher em Goiânia não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural enraizado em profundas desigualdades de gênero, raça e classe. Dados recentes levantados pelo Observatório de Mulheres em Goiânia (Berê) mostram que o patriarcado e o racismo operam de forma combinada na capital, expondo mulheres negras e pardas a vulnerabilidades muito mais acentuadas no espaço urbano. Entre 2021 e 2023, a cidade registrou um crescimento de 32,3% nos casos de violência, segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP-GO).

Embora o Estado de Goiás tenha apresentado uma redução nas taxas de homicídio de mulheres, o benefício dessa queda não foi distribuído de forma igualitária. De acordo com o Atlas da Violência de 2025, enquanto a diminuição entre mulheres não negras foi de 26,5%, o índice para mulheres negras caiu apenas 20,4%. No contexto municipal, a disparidade é ainda mais evidente: ao excluir os registros onde a cor não foi informada, mulheres negras e pardas somaram 8.433 vítimas entre 2021 e 2023.

A nível nacional, o cenário é igualmente grave. Ainda segundo o Atlas da Violência de 2025, as mulheres negras representam 68,2% das vítimas de homicídio no País. Em Goiás, o volume total de casos de violência doméstica continua em ascensão, saltando de 11.317 ocorrências em 2023 para uma projeção de 14.977 em 2025.

O perfil das vítimas fatais em Goiânia aponta para um recorte de classe social bem definido, conforme levantou o Berê. Cerca de 35% das mulheres assassinadas eram donas de casa ou trabalhavam em atividades de subsistência e ocupações mal definidas, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade (Sim/Datasus). Para os especialistas, a ausência de suporte econômico funciona como uma “âncora” que impede essas mulheres de romperem o ciclo da violência antes que ele se torne letal.

A idade também é um fator determinante. Enquanto a violência doméstica atinge majoritariamente mulheres entre 35 e 64 anos (44%), os homicídios vitimam com maior frequência as jovens entre 20 e 39 anos (50%), aponta o Sim/Datasus. O dado sugere que as gerações mais novas enfrentam barreiras adicionais para acessar as redes formais de denúncia e proteção.

Um dos maiores obstáculos para o enfrentamento do crime é a qualidade das informações oficiais. O número de registros onde a cor da vítima consta como “não informada” cresceu mais de 93% no Estado. Em Goiânia, entre 2021 e 2023, esse campo ignorado saltou de 4.219 para 7.092 casos. Ao não cruzar a tipificação do crime com o perfil racial, o Estado acaba por invisibilizar as mulheres que estão à margem da sociedade, comprometendo a criação de políticas públicas que realmente alcancem quem mais precisa.

Apesar da existência de marcos legais, como a Lei nº 15.336/2026 e o Pacto Brasil para o enfrentamento ao feminicídio, as ações governamentais ainda são insuficientes para transformar a realidade social. A conclusão do estudo promovido pelo Berê é que Goiânia exige uma abordagem obrigatoriamente interseccional, que qualifique os registros estatais e garanta o direito à vida para além das barreiras de cor e classe.

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